facebook youtube

Obras Vera Chaves Barcellos

O que restou da Passagem do Anjo

No livro Obras Incompletas, o filósofo francês François Soulages observa que, para a artista Vera Chaves Barcellos, o anjo simboliza o espírito da Arte, “essa coisa indefinível e impalpável que transforma o trivial em criação e arte” (SOULAGES, 2009, p.22).

(Detalhe da série fotográfica)

A primeira versão deste trabalho foi concebida para uma mostra temática sobre O Anjo, em 1993, na inauguração do espaço L’Angelot, em Barcelona.

A imagem acima é  um registro fotográfico  da segunda versão da instalação que, atualmente, integra a coleção do acervo do Museu de Arte Moderna de São Paulo.

Vera Chaves Barcellos e a percepção humana

O pesquisador Prof° Dr° Paulo Silveira observa que a artista multimídia Vera Chaves Barcellos dedica quase a totalidade “do seu currículo aos problemas conceituais da arte, da percepção e da integração do indivíduo em sistemas. Sua obra é, por isso, essencialmente sistêmica”. Em Cegueses – a caminho de Tirésias, de 1997, a problemática da percepção é abordada pelo viés da cegueira.

Realizado in situ no Museu D’ Art de Girona, na Espanha, o trabalho não exibe imagens “visuais”, mas apresenta textos descritivos sobre obras de cinco artistas brasileiros que trabalharam com a negação do olhar nos anos 1960 e 1970.

 

 

Vera Chaves Barcellos aborda na obra  a temática da cegueira, fazendo referência, no título da instalação, ao mítico personagem Tirésias, que surge em tragédias gregas como um profeta cego.

Crítica à unicidade da imagem em V x V

Em V x V, de 1977, a partir de uma fotografia feita pelo artista Telmo Lanes, temos uma espécie de  autorretrato psicológico da artista Vera Chaves Barcellos.

A imagem fotográfica é explorada pela artista Vera Chaves Barcellos a partir do questionamento da unicidade de sentido da imagem. Diferente de outros signos de decodificação imediata, a imagem artística não tem um sentido único, podendo inclusive não ter sentido algum.

Em V x V, estamos diante de “duas” mulheres  que puxam uma mesma corda. O olhar mais atento  do espectador descobre a ficcionalidade (o desdobramento espelhado) da imagem;  a artista surge duplicada e  parece travar um ”cabo de força” consigo mesma.

V x V é, desse modo, uma crítica irônica do sentido possível que se pode dar a uma imagem: sua condição de imagem fabricada anuncia que toda imagem é fabricada e passível de manipulação. Três décadas mais tarde, a artista confessou que o trabalho é  um autorretrato irônico, criado em uma época em que as dúvidas a invadiam.

(Fonte: SOULAGES, François. Vera Chaves Barcellos: Obras Incompletas. Porto Alegre, RS: Zoulk, 2009).

“A Respeito do Sorriso – Keep Smiling”, 1977.

O 7° cartazete do Nervo Óptico é dedicado à obra da artista Vera Chaves Barcellos. No trabalho A Respeito do Sorriso – Keep Smiling, Vera retrata amigos e a si própria com uma pequena placa de identificação, similar à usada para registrar a data em fotografias de passaporte ou registro penitenciário , com a inscrição “Keep Smiling”, continue sorrindo. A artista e pesquisadora Camila Schenkel destaca que a obra opera com dois paradigmas da linguagem fotográfica: o retrato de proporção 3 X 4 que enquadra o rosto e parte do peito, e o sorriso.

Já a crítica Angélica de Moraes enxerga no cartazete uma alusão irônica ao ambiente político de então, de vigilância constante, quando a ditadura militar fazia sangrenta repressão à oposição. “O único caminho para a sobrevivência era “continuar sorrindo” para a foto oficial perscrutadora de intenções subversivas” interpreta Angélica. Vera Chaves Barcellos, entretanto, esclarece que o caráter político não estava em seu horizonte criativo: “Minha intenção foi realizar um trabalho divertido”, declara a artista.

Para François Soulages, há uma crítica implícita na inscrição Keep Smiling referente à pressão social do bom humor e do “Tudo vai bem”, às exigências sociais da polidez, enfim. (Fonte: SOULAGES, François. Obras Incompletas. Zoulk: Porto Alegre, 2009).

“O Beijo”, da série “De Película”, 2001.

Vera Chaves Barcellos utiliza em sua produção criativa a imagem fotográfica não como fotógrafa, mas como artista. Desde o início dos anos 2000, Vera tem dado sequência à sua investigação acerca da imagem por meio de imagens peliculares.

O Beijo, da série De Película, 2001.

Por imagens peliculares entendemos imagens fotografadas da televisão e que reproduzem imagens de filmes. O processo envolve a captação da imagem a partir da imagem televisiva, sua restituição com a fotografia, sua montagem: a composição de um conjunto de algumas imagens que propõe a ficcionalização do todo.  O espectador, desse modo, é convidado a projetar lembranças, emoções, fantasmas, angústias sobre essas imagens e assim conferir sentido. Por outro lado, Vera ao fazer a imagem se apresenta como espectadora-criadora: com efeito, é porque ela reagiu às imagens de televisão que as fotografou e, por isso mesmo, que fez obra.  (Fonte: SOULAGES, François. Obras Incompletas. Zoulk: Porto Alegre, 2009).

“Estranho Desaparecimento de V.C.B.” , 1976 – 2013

Estranho desaparecimento de V.C.B. , da artista Vera Chaves Barcellos reúne uma série fotográfica de 1976, apresentada em uma versão animada.