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Silvio Nunes Pinto: Ofício e Engenho

No ano em que Viamão completa 275 anos, a FVCB homenageia a produção de Silvio Nunes Pinto,  artista viamonense com originalíssima criação, falecido há 11 anos e desconhecido do grande público.

De 27 de agosto a 16 de dezembro de 2016, a Fundação Vera Chaves Barcellos apresentou Silvio Nunes Pinto: Ofício e Engenho – exposição que destacou a força inventiva de um artista de vigorosa produção situada entre a artesania, o design e a arte popular.

Morto em 2005, Silvio Nunes Pinto não possuía formação artística tradicional, o que denota de modo expressivo o engenho e a originalidade do rico e diverso conjunto de trabalhos presente na mostra organizada por Vera Chaves Barcellos e Marcela Tokiwa.

A mostra reuniu desde pequenas peças como abotoaduras e pingentes de madeira até peças de mobiliário como mesas, estantes e armários; além de cadeiras esculpidas e esculturas de animais, pássaros e mamíferos, figuras humanas além de uma série completa de veículos militares e figuras do mundo rural. Grande parte das obras demonstra um agudo senso de observação do artista e algumas são portadoras de fino humor; outras são tanto representativas como utilitárias, a exemplo de uma série de luminárias, na qual traduz seu interesse pelo futebol e pela iconografia animal. A exposição reproduziu, ainda, na Sala dos Pomares, o espaço de trabalho do artista: uma diminuta casa de cerca de 10 m², onde o artista produzia seus trabalhos. No espaço, haverá a projeção de um vídeo.

Silvio Nunes Pinto: Ofício e Engenho abrangeu tanto o espectro criativo das obras como o engenho na elaboração destas e dos materiais de trabalho, constituindo, assim, uma introdução ao universo do artista, não só atrativa ao público de sua cidade natal, Viamão, como a todos os públicos de qualquer geografia.

Silvio Nunes Pinto por Vera Chaves Barcellos

Silvio Nunes Pinto nasceu em 1940, no município de Viamão, Rio Grande do Sul, pertencendo a uma família afrodescendente e numerosa, formada pelo casal e oito filhos, sendo ele um dos mais velhos.  Embora tenha inicialmente frequentado a escola durante um breve período, não se adaptou, e, mais tarde, não teve maiores oportunidades de uma educação formal, como alguns de seus outros irmãos. O pai, falecido em meados dos anos 50, foi trabalhador rural. A viúva, mulher de grande coragem e determinação, apesar de não letrada, criou seus filhos com dificuldade, sustentando-os com seus trabalhos domésticos, como cozinheira, lavadeira e passadeira. Silvio, tal como o pai, trabalhou no campo, junto a seu irmão Paulo, até meados dos anos 1970. Durante os anos de sua juventude, ambos foram jogadores de futebol amador em dois clubes da cidade.

Não temos muito claro o que impulsionou Silvio, a partir dos anos 60, a começar a fazer peças de artesania em madeira, atividade que mantém até sua morte. Trabalhou durante vários de seus últimos anos, a partir do inicio dos anos 1990, em uma pequena casa, de cerca de 10m2, junto à moradia de sua família (mãe, irmãs e irmãos), onde continuou sua produção, iniciada décadas antes.

Após sua morte, em 2005, prevendo-se que sua produção seria dispersa em doações a pessoas que não lhe dariam o devido valor, foi proposta à família a aquisição de todas as peças ainda mantidas no local. Foi nesse momento, quando entramos pela primeira vez em seu espaço de trabalho, abarrotado de esculturas e objetos os mais diversos, peças de mobiliário, equipamentos e instrumentos utilizados em seu oficio de artesão, que ficamos cientes do volume, da diversidade e da riqueza de imaginário de que sua obra era portadora.

Visitação: de 27 de agosto à 16 de dezembro de 2016, sob agendamento prévio pelos telefones: (51) 8229-3031 e (51)9949-0348 ou pelo e-mail educativo@fvcb.com.

Humanas Interlocuções

“A grandeza do homem está em ser ponte e não meta: o que nele se pode amar é o fato de ser ao mesmo tempo transição e declínio.”

Friedrich Nietzsche

“Saberemos cada vez menos o que é um ser humano.”
José Saramago

Abrindo a programação expositiva da Sala dos Pomares | 2016, de 09 de abril a 16 de julho, a Fundação Vera Chaves Barcellos apresenta Humanas Interlocuções – uma contundente amostra estética da presença da figura humana na arte contemporânea pelo prisma de 54 artistas; entre brasileiros, latino-americanos, europeus, norte-americanos e orientais. Fotografias, vídeos, impressões, litografias, colagens, objetos, serigrafias e xilogravuras integram o variado conjunto de obras, muitas delas exibidas na FVCB1 pela primeira vez. A curadoria é de Thaís Franco, responsável pelo acervo artístico da Fundação.

Abrangendo cerca de 50 anos de produção artística (de 1960 a 2016), a seleção de trabalhos tem como núcleo articulador o potente emprego do corpo pelos artistas: seja como suporte, seja como tema de investigação criativa; ou, ainda, como vetor de problematização da subjetividade em relação a diferentes esferas – simbólicas, políticas, sociais e culturais.

A mostra é constituída por segmentos temáticos postos em diálogo transversal, contemplando desde a construção do indivíduo; passando pelo corpo em sua potência comunicativa; o culto ao corpo em uma articulação entre as suas partes e particularidades; e, por fim, a massificação e dissolução da identidade.

Participam da mostra os artistas: Afonso Roperto, Albano Afonso, Alex Vallauri (ORG), Angela Jansen, Anna Bella Geiger, Bárbara Wagner, Begoña Egurbide, Berna Reale, Breno Rotatori, Carla Borba, Carlos Asp, Carlos Wladimirsky, Carolina Gleich, Christian Cravo, Cia de Foto, Claudio Edinger, Claudio Goulart, Dario Villalba, Denis Masi, Edgardo Antonio Vigo, Eduardo Cruz, Efrain Almeida, Elcio Rossini, Fernando De Filippi, Flávio Damm, Flávio Pons, Haroldo Gonzalez, Hirosuke Kitamura, Hudinilson Jr., Ío, Iole de Freitas, Jason Evans, Jaume Plensa, João Castilho, Jürgen O. Olbrich, Leon Ferrari, Mara Alvares, Milton Kurtz, Patricio Farías, Paulo Bruscky, Paulo Nazareth, Rafael França, Ramon Rubio, Regina Silveira, Rintaro Iwata, Rogério Nazari, Romanita Disconzi, Sofia Martinou, Sol Casal, Susana Solano, Tony Camargo, Vera Chaves Barcellos, Vinicio Horta e Wilson Cavalcanti.

Humanas Interlocuções segue em cartaz até dia 16 de julho e terá uma intensa programação paralela. Palestras, encontros com artistas e teóricos, além do  Programa Educativo com as visitas mediadas e a promoção do Curso de Formação Continuada em Artes – são algumas das ações permanentes com as quais a FVCB segue oportunizando vivas experiências com a arte, estimulando a formação de novos públicos e valorizando a arte como instância de conhecimento e instrumento de importância na educação e sensibilização da formação humana.

DESTINO DOS OBJETOS

De 22 de agosto a 12 de dezembro de 2015, a Fundação Vera Chaves Barcellos apresenta a mostra Destino dos Objetos | O artista como colecionador e as coleções da FVCB. Impressões, desenhos, fotografias, gravuras, fotocópias, objetos, esculturas, colagens e vídeos integram a mostra que reúne um diverso grupo de 50 artistas de várias nacionalidades.

Com curadoria de Eduardo Veras, Destino dos Objetos examina como, por diferentes caminhos, os artistas se fazem colecionadores, ou, pelo menos, como seus trabalhos podem replicar algo do furor colecionista. Há aqueles que tratam de isolar, recolher e sacralizar peças específicas, peças que imediatamente perdem sua função original, mesmo que não renunciem às memórias que carregam. Há também aqueles em que, mais do que a escolha, despontam as noções de acúmulo, ordenamento e classificação. Entre uns e outros, o artista emerge como o sujeito dos desejos e das decisões, oferecendo ou adivinhando um destino para os objetos.

A exposição remonta ao gérmen da própria Fundação Vera Chaves Barcellos, cuja origem acervística encontra-se nas coleções de arte formadas pelos artistas Vera Chaves Barcellos e Patricio Farías ao longo dos anos, antes mesmo da formalização desse importante centro de divulgação de arte contemporânea.

Participam da mostra artistas brasileiros, latino-americanos e europeus: 3NÓS3, Albert Casamada, Almandrade, Amanda Teixeira, Anna Bella Geiger, Antoni Muntadas, Boris Kossoy, Brígida Baltar, Cao Guimarães, Carlos Asp, Carmela Gross, Christo, Daniel Santiago, Elcio Rossini, Ester Grinspum, Evandro Salles, Feggo, Gisela Waetge, Gretta Sarfatty, Hannah Collins, Heloísa Schneiders da Silva, Hudinilson Jr., Jailton Moreira, Jesus R.G. Escobar, Joan Rabascall, Joaquim Branco, Joelson Bugila, Julio Plaza, Klaus Groh, León Ferrari, Lia Menna Barreto, Mara Alvares, Marcel-li Antunez, Marcelo Moscheta, Marco Antônio Filho, Marcos Fioravante, Maria Lúcia Cattani, Mariana Silva da Silva, Marlies Ritter, Mario Ramiro, Mário Rohnelt, Michael Chapman, Nicole Gravier, Nina Moraes, Patricio Farías, Rogério Nazari, Téti Waldraff, Ulises Carrión, Vera Chaves Barcellos e Waltércio Caldas.

Destino dos Objetos permanece em cartaz até o dia 12 de dezembro de 2015 e contará com uma programação paralela com palestras, conversas com artistas, além das visitas mediadas e da promoção do Curso de Formação Continuada em Artes – ações permanentes do Programa Educativo da FVCB, que segue oportunizando vivas experiências com a arte e estimulando a formação de novos públicos.

 

EXPOSIÇÃO DESTINO DOS OBJETOS

Visitação de 22 de agosto a 12 de dezembro de 2015

Visitas sob agendamento prévio pelo telefone (51)8229 3031 ou por e-mail: educativo@fvcb.com: de segunda à sexta-feira, das 14h às 17h30 e terças e sextas, das 9h às 12h. Endereço: RS 040 | Av. Senador Salgado Filho, 8450 (pórtico de entrada ao lado do condomínio Buena Vista, altura da parada 54), VIAMÃO, RS.

Nelson Wiegert I Fórmulas Abstratas

De 21 de março a 18 de julho 2015, a Fundação Vera Chaves Barcellos apresenta a exposição Nelson Wiegert I Fórmulas Abstratas .

Com organização e expografia de Vera Chaves Barcellos e do próprio Nelson Wiegert, a exposição individual do artista destaca sua mais recente produção: fotografias de grande formato, em preto e branco, que reproduzem intervenções sobre fórmulas matemáticas, gerando imagens de grande força e rigor. A esse conjunto de trabalhos, o artista denominou Fórmulas Abstratas.

A ideia da obra surgiu em uma visita ao Instituto de Mineralogia e Física de Munique no momento em que o artista observou fórmulas deixadas em um quadro negro. O trabalho é uma espécie de acerto de contas do artista com a matemática, campo do conhecimento humano que nunca antes havia despertado seu interesse.

A execução da obra revelou ao artista um novo método de desenho rápido sem a utilização do papel. “Por permitir apagar e refazer, o desenho a giz sobre o quadro é um ótimo método de trabalho, ágil e constante. Os desenhos selecionados são fotografados e computadorizados, podendo ser reproduzidos. As reproduções são igualmente selecionadas e, posteriormente, impressas como peças únicas. Com essa breve exposição, espero que este trabalho chegue ao espectador com o mesmo impulso livre que despertou em mim” diz o artista.

A série ocupará toda a galeria do térreo da Sala dos Pomares. Desenhos, fotografias e colagens que esclarecem sobre o processo de construção da obra de Nelson Wiegert poderão ser vistas pelo público no mezanino. A mostra exibe trabalhos da coleção do artista e do Acervo da FVCB.

Nelson Wiegert I Fórmulas Abstratas permanece em cartaz até o dia 18 de julho de 2015 e contará com uma programação paralela constituída por palestras com teóricos e visitas mediadas que integram o Programa Educativo da FVCB, que segue apostando no poder socialmente transformador da arte.

Um Salto no Espaço

Dando prosseguimento às comemorações dos seus 10 anos, a Fundação Vera Chaves Barcellos inaugura no dia 23 de Agosto a exposição Um Salto no Espaço. Com organização da artista plástica Vera Chaves Barcellos, que também preside a instituição, a mostra configura-se como uma múltipla abordagem do espaço tanto de sua forma mais literal, sua ocupação física, como de uma forma conceitual ou metafórica.

Partindo do Salto no Vazio, de Yves Klein, metáfora do fazer artístico por excelência, deste jogar-se de corpo inteiro numa ação de risco, e tendo como axis a representação museológica de um meteorito de Michel Zózimo, esta mostra, através de diferentes mídias, oferece um mergulho em tudo aquilo que pode gerar um trabalho artístico que se ofereça ao espectador como espaço de reflexão.

A exposição reúne um grupo expressivo de artistas brasileiros e alguns artistas europeus de diversas gerações, com trabalhos que apresentam desde a ocupação do espaço real à sua representação virtual, do espaço íntimo ao espaço urbano, do universo psicológico ao território social, da reconstrução ficcional ao documento do real, do cheio ao vazio, do sólido ao etéreo, da presença material ao jogo da imaginação.

Participam de Um Salto no Espaço: Angelo Venosa, Anna Bella Geiger, Claudio Goulart, Clovis Dariano, Daniel Acosta, Daniel Santiago, Elaine Tedesco, Eliane Prolik, Flávio Damm, Goto, Lucia Koch, Luciano Zanette, Marlies Ritter, Mario Röhnelt, Nelson Wiegert, Michel Zózimo, Pedro Escosteguy, Regina Silveira, Regina Vater, Rochelle Costi, Romy Pocztaruk e Vera Chaves Barcellos, além da participação especial de Grégoire Dupond e Yves Klein.

Consolidando-se como uma instituição que difunde a produção artística contemporânea e estimula o debate em torno dela, a Fundação Vera Chaves Barcellos segue na promoção de encontros com artistas, palestras com teóricos e visitas mediadas, apostando, através do seu Programa Educativo, no potencial socialmente transformador da arte.

Organização: Vera Chaves Barcellos

Fotografia Transversa

“A fotografia é um instrumento perfeito para duvidar”

Fotografia transversa* quer indicar, de saída, uma condição contemporânea da imagem fotográfica: a de procurar uma transversalidade de linguagem (de intenções estéticas e semânticas), como outro caminho encontrado de hibridação artística que transversaliza territórios e posições em favor de uma visualidade mais viva. Algo que pode ser resumido tanto na distância do mimetismo representacional como da dialética binária imagem-realidade – que a fotografia de outrora ajudou a desenvolver como agora ajuda a desmitificar em seu reconhecimento de ficcionalidade –, e ao mesmo tempo, na potencialização de outros suportes e registros para uma imagem que favorece a transmutação visual e perceptiva. Reflete-se então sobre dois pontos comunicantes: a implosão e desvio do suporte tradicional, que se faz imagem múltipla, metabolizada com linguagens afins, e uma chamada fotografia plástica que não evita a fricção das imagens fixas e em movimento (a sua condição de entre-imagens).

Assim, Fotografia transversa procura indagar no conceito de uma “fotografia que está além da fotografia”, que está dentro e fora dela – que sabe virar do avesso a sua história e se ver em outra contextualização de significados e dimensões –; que se metamorfoseia em outra coisa não canônica (nem refém de códigos pré-categorizados), mas utilizando, porém, elementos do vocabulário fotográfico para abrir-se a outras estratégias representacionais de imaginários mais livres.

Nesta proposta, portanto, se privilegia aquela fotografia que conta com a experimentação do suporte de forma constitutiva, estrutural, e em suma, semanticamente. Isso permite abrigar experiências perceptivas que podem estar além da planaridade, da contemplação meramente retininiana – abrindo-se para outra sensorialidade mais múltipla, mais contaminada de sentidos –, e, evidentemente, além da leitura da imagem fotográfica como mero correlato documental. Fotografia transversa abriga, pois, experiências daquela fotografia que trabalha com dimensões objetuais e espaciais, e se articula com outros gêneros artísticos, apostando num meio híbrido de transformação visual. Como fotografia ampliada, então, os trabalhos aqui reunidos utilizam a fotografia como ponto de partida, mas não necessariamente de chegada.

Obs. Talvez a translação do conceito de fotografia para o de imagem – a imagem e semelhança de muita arte contemporânea seguindo os desígnios de um novo entendimento da visualidade – seja o leit motiv subjacente desta mostra. Fotografia transversa, de alguma forma, mapeia esse trânsito, ou melhor, esboça, adivinha esse salto estético, que não deixa de ser quântico em nossa época.

O termo ”transversa” *, referindo-se à certo tipo de fotografia, foi sugerido ao autor, em uma conversa com  Vera Chaves Barcellos.

           Adolfo Montejo Navas

Inéditos, ou quase…

O uso da fotografia e a exploração das qualidades intrínsecas da imagem técnica são procedimentos recorrentes na produção de Vera Chaves Barcellos, desde o início de sua trajetória artística. Alinhada com a vertente conceitual desde o final dos anos 1960, a importância concedida pela artista ao plano das ideias nunca se dá em detrimento da materialidade ou do apuro formal. Dito de forma mais precisa, o interesse de Vera Chaves pela imagem e pela fotografia passa pela atenção à forma, ao lugar e ao contexto de apresentação, assim como é direcionado ao exercício da linguagem e às referências ao próprio campo da arte e à sua história. A investigação sobre as relações entre pensamento e percepção constitui outro fundamento para a abordagem dos trabalhos reunidos nesta exposição, na medida em que a conduta perceptiva ou imaginativa do receptor/espectador é um dos focos de pesquisa da artista. O recurso à série, por sua vez, é outro ponto de conexão entre vários trabalhos apresentados em Inéditos ou Quase, por sua recorrência na produção de Vera Chaves ao longo destas quatro décadas de atividade. Mais do que um desejo de elaborar um tipo de narrativa visual, o trabalho com séries de imagens sinaliza o caráter processual da produção de uma obra artística, conectando o momento de sua concepção ao seu destino. Destino que se manifesta ao propiciar o compartilhamento de uma experiência estética que desestabilize as certezas e os lugares-comuns da vivência cotidiana. Ao atingir este caráter emancipador pouco importa se vemos uma obra pela primeira ou pela milésima vez.

Ana Albani de Carvalho

Limites Imaginário

A Fundação Vera Chaves Barcellos inaugura a primeira exposição de 2013, Limites do Imaginário, apresentando coletânea de obras de 25 artistas do acervo. Com organização de Neiva Bohns e Vera Chaves Barcellos a mostra exibirá esculturas, desenhos, gravuras, vídeos e instalações, e tem como artistas convidados: Lia Menna Barreto, Nelson Wiegert e Lorena Geisel, além de Tony Camargo, jovem artista paranaense que exibe seus Videomódulos no Rio Grande do Sul pela primeira vez. Abertura no dia 13 de abril das 11 às 17hs e visitação de 15 de abril a 20 de julho. Limites do Imaginário, a exposição que abre a programação anual da FVCB, tem organização e curadoria de Vera Chaves Barcellos e Neiva Bohns, profª na UFPEL e diretora cultural da FVCB. A mostra reúne trabalhos de artistas brasileiros e estrangeiros: Avatar Moraes, Begoña Egurbide, Bóris Kossoy, Domènec, Elcio Rossini, Lorena Geisel, Mario Ramiro, Mário Röhnelt, Marlies Ritter, Mauro Fuke, Michael Chapman, Patricio Farías, Ricardo Carioba, Rodrigo Braga, Rosângela Rennó, Sandra Cinto, Sol Casal, Suzy Gomes, Terry Wilson, Vera Chaves Barcellos, Vilma Sonaglio e Walmor Corrêa. Todas as obras integram a coleção da FVCB. A mostra contará ainda com trabalhos de quatro artistas convidados que, embora tenham obras na coleção da FVCB, apresentarão nesta mostra obras distintas. Lia Menna Barreto com destaque para sua Máquina de Bordar, da série “Sistemas cultivados”, trabalho que segundo a artista, embora datado em 1998, nunca foi exposto no sul; Tony Camargo, jovem artista de Curitiba que vem se destacando por suas videoperformances, apresenta ao público trabalhos da série Videomódulos; Nelson Wiegert, artista gaúcho radicado em Munique desde os anos de 1960 e que retorna com toda a força em suas recentes e impecáveis fotografias, e ainda Lorena Geisel, artista gaúcha que mostrará um de seus objetos inéditos, Nu feminino. A exposição Limites do Imaginário, numa espécie de reação ao rigor construtivo e racionalista da exposição anterior (dedicada à obra de Julio Plaza) propõe agora ao espectador o diálogo livre entre obras que provocam a imaginação do público sobre o que é real e o que é representação e inclui trabalhos em que se notam reverberações do surrealismo.

Julio Plaza, Construções Poéticas

 

De 15 de setembro a 21/dez/2012 a Sala dos Pomares acolheu a primeira exposição dedicada a um único artista. Escritor, gravador, artista intermídia, teórico e professor, Julio Plaza (Madrid,1938- São Paulo,2003)  é um artista importante tanto pelo  conjunto de sua obra e seu interesse desbravador no campo da arte e tecnologia,  como pelas gerações de artistas que influenciou em suas atividades didáticas exercidas na ECA-USP, na FAAP, na PUC-SP e na UNICAMP. Vera Chaves Barcellos e Alexandre Dias  Ramos respondem pela organização e curadoria da exposição propondo uma revisão expográfica inédita no RS de sua produção artística acrescida pelo aval de terem convivido ou estudado com o artista. A obra e a vida de Julio Plaza ainda não foram objeto de publicação e seus trabalhos permanecem pobremente reproduzidos. O Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo prepara uma grande exposição sobre o artista programada para 2013.

Artista intersemiótico e com produção multimeios, pesquisador e expert em técnicas gráficas, Julio Plaza consolidou sua obra com pintura, desenhos e objetos ainda nos anos 60, sob o vetor construtivo. Desembarcou no Brasil pela primeira vez em 1967, integrando a representação espanhola que participou da 11ª Bienal Internacional de São Paulo, e como bolsista do Itamarati, para um estágio no ESDI, Escola de Desenho Industrial do Rio de Janeiro, onde permaneceu até 1969, ano em que realizou o Livro-Objeto, com o editor argentino Julio Pacello.

No contexto brasileiro foi um desbravador da arte interativa promovida pelo surgimento de novas tecnologias da comunicação. Trabalhou com videotexto,  slowcam TV, holografia, fax e computação digital, partilhando e influenciando gerações de artistas no campo da arte mídia e protagonizando o processo de hibridação artística dos meios na chamada cultura das mídias. Pensador e teórico com reflexão aprofundada sobre os fundamentos poéticos da criação artística, e do papel determinante dos meios no imaginário digital, publicou textos fundamentais ao estudo das novas tecnologias aplicadas à arte, como Tradução Intersermiótica; Videografia em Videotexto e Processos Criativos com os Meios Eletrônicos: Poéticas Digitais, este em colaboração com Monica Tavares.A ideia de tradução intersemiótica, tema de sua tese de doutorado, perpassa toda a obra de Julio Plaza, e é entendida por ele basicamente como a transposição de uma peça literária, geralmente um poema (às vezes também uma pintura), para um outro código diferente (visual, sonoro), mantendo o sentido e o modo de funcionamento da peça original.  Plaza explorou essa proposta num número bastante grande de sofisticados experimentos e abrangendo praticamente todos os novos meios. Autor de vários livros de artistas publicou com o poeta concretista Augusto de Campos, os célebres  Poemóbiles, de 1968 e  Caixa Preta, de 1975, volumes impressos que permitem ao leitor transformá-los em objetos poéticos tridimensionais e ainda o livro-poema Re-Duchamp, de 1976, obras que serão exibidas na presente exposição.

Em depoimento da artista Inês Raphaelian,”Julio (Plaza) elabora uma espécie de poesia visual que muitas vezes sintetiza os princípios característicos da pintura (espaço) e da literatura (tempo).  Equilibrando-se entre o verbal e o não-verbal, promove uma fusão imaginativa entre sensível e inteligível, penetra as entranhas dos signos e ilumina suas relações estruturais.”Julio Plaza teve grande atuação igualmente como organizador de exposições desde seu estágio na Universidade de Puerto Rico, onde lecionou de 1969 a 1973 (ano em que se estabeleceu definitivamente no Brasil). Lá realizou uma das primeiras exposições internacionais de arte postal na América e, posteriormente, pela intensa colaboração com Walter Zanini, então diretor do MAC-USP, no inicio dos anos 1970. Foi curador do setor de Mail Art da “XVI Bienal de São Paulo”, em 1981. Em 1982 realizou no Museu da Imagem e do Som, em SP, a exposição “Arte pelo Telefone: Videotexto”, envolvendo artistas com produções relacionadas à poesia, narrativa e artes visuais a partir de recursos do videotexto e levada no ano seguinte para a Bienal de SP.

Em 1985, dentro da mostra Arte e Tecnologia, no MAC/USP, ele organizou uma das primeiras exposições coletivas de holografia, com obras suas e também de Augusto de Campos, Décio Pignatari, Moysés Baumstein e  José  Wagner Garcia,desenvolvendo conjuntamente projetos ligados à poesia concreta e  culminando  numa exposição mais ambiciosa dos mesmos artistas em 1987, no MIS, Idehologia. Contestador radical e bastante inconformado com o sistema da arte ao qual criticava de maneira sistemática foi autor de vários aforismos, entre eles: “Arte é um bem que faz mal.” Seu trabalho questiona os meios, o processo, a produção, o mercado, a autoria, a crítica, a instituição e tudo o que envolve arte e cultura no contexto em que se realizam.

A FVCB, com apoio do MAC-USP, produziu para a exposição o vídeo “Julio Plaza,o poético e o político”,  com direção de Hopi Chapman e Karine Emerich, da Flow Films. O documentário em média-metragem http://fvcb.com.br/?p=1689 gravado na Espanha e no Brasil traz depoimentos de artistas e intelectuais que conviveram com Julio Plaza. Vera Chaves Barcellos gravou pessoalmente em Madrid os testemunhos de Luis Lugán, precursor da arte tecnológica espanhola; de Julián Gil, veterano artista expoente do concretismo espanhol e Ignacio Gómez de Liaño, escritor e filósofo, todos, de uma maneira ou outra, vinculados à arte experimental e às vanguardas poéticas espanholas da década de 1960. No Brasil foram gravados depoimentos das artistas Regina Silveira, que foi casada com Julio Plaza durante 20 anos, Lenora de Barros e Inês Raphaelian. E ainda Cristina Freire, pesquisadora e vice-diretora do MAC-USP, Gabriel Borba, Martin Grossman e Ana Tavares, além do poeta Augusto de Campos.

Des Estruturas

De  14 de abril a 28 de julho de 2012 a Sala dos Pomares apresentou a  exposição Des|Estruturas, novo recorte no acervo que pretendia inicialmente diálogos entre obras de dois tipos: aquelas que partem de um projeto específico e claro e outras que dão mais lugar à intuição e ao momento do fazer e cuja produção está intimamente relacionada ao próprio processo.   No entanto, no decorrer da escolha pela organização da mostra, que teve curadoria de Vera Chaves Barcellos e Neiva Bohns, essa divisão entre a forma de elaboração de um produto artístico,  revelou-se, num segundo momento, demasiado simplista, já que alguns trabalhos, embora rigorosamente projetados e estruturados, também implicam a sua própria desestruturação. Isso prova mais uma vez que arte não é uma coisa simples.

Este conjunto de obras da coleção da FVCB, pertencentes a diversas épocas, dos anos 60 até a atualidade, reunindo autores tanto brasileiros como estrangeiros,  reafirma a arte como um fenômeno complexo e digno de ser estudado e analisado.

A mostra, contrapõe o gestualismo de Emilio Vedova ao rigor de Joseph Albers  e reuniu desde pequenas obras sobre papel, como as delicadas gravuras em metal da chinesa Lili Hwa, que valorizam o gesto, ao expressivo conjunto de 134 pinturas sobre papel de Lenir de Miranda sobre o tema de Ulisses. Potentes são os desenhos em 12 partes de Maristela Salvatori , a insólita instalação de Carlos Pasquetti , e  as monumentais esculturas construtivas de Eduardo Frota. E destacamos a obra emblemática como é o LC3 , um dos bichos de Lygia Clark, editados pela Limited Edition, de Londres, nos anos 1960, escultura transformável em múltiplas esculturas distintas. Muitas outras obras de grande interesse foram oferecidas nesta exposição ao espectador: um leque amplo e aberto à contemplação e à reflexão.

Vera Chaves Barcellos